Conheçam como foi essa prova extremamente desafiadora que deu uma volta ao mundo!

Nos primórdios da indústria automobilística, as chamadas ‘carroças sem cavalos’ eram uma novidade e muitos duvidavam de seu futuro, pensando se tratar de uma moda passageira, pois os carros da época demandavam perícia para funcionar e guiar, sem mencionar que os cavalos ainda eram mais velozes. Um outro entrave era o preço muito alto e somente a aristocracia tinha condições para comprar.
Para promover os automóveis, as montadoras decidiram unir forças e criar corridas para provar qual era o mais rápido e isso fomentou a indústria, já que engenheiros e designers se esforçavam ao máximo para extrair o melhor desempenho possível e ganhar prêmios em dinheiro. Logo surgiram as corridas de longa duração para colocar a resistência dos automóveis à prova e em 1907 ocorreu o evento mais ousado já realizado até então: a Pequim-Paris, um percurso com quase 15 mil quilômetros!
Se isso ainda é uma baita distância para os padrões atuais, imagina só como seria nessa época em que os carros mais potentes tinham dentre 50 a 60 cv… A largada ocorreu em Pequim, a capital da China, no dia 10 de junho de 1907 e foi vencida pelo príncipe italiano Scipione Borghese, acompanhado por seu chofer Ettore Guizzardi e o jornalista Luigi Barzini que guiaram um Itala 35/45 HP até a linha de chegada em Paris no dia 10 de agosto após, exatamente, dois meses de corrida.
A corrida de inspirada em Jules Verne!
Para 1908, a organização decidiu promover uma corrida ainda mais ousada, sendo uma verdadeira volta ao mundo! Inspirada na obra A Volta ao Mundo em 80 Dias do francês Jules Verne, promoveram uma corrida onde incluía os Estados Unidos, caracterizando quase que uma volta ao mundo completa. Batizado de A Grande Corrida, a largada seria no dia 12 de fevereiro na cidade de New York (EUA) e seu final em Paris (França).
Nos Estados Unidos, o trajeto seria de New York (New York) até San Francisco (California), depois seguiriam rumo ao norte até o Alasca, atravessariam o Estreito de Bering até a Rússia e depois cruzaria o resto da Europa até chegar a Paris. Os patrocinadores do evento foram os jornais The New York Times (Estados Unidos) e Le Matin (França) que também fariam a cobertura completa dessa imensa façanha! Rodovias pavimentadas e postos de gasolina eram escassos e os destemidos pilotos não saberiam o que iriam encontrar pelo caminho.

O espírito de aventura e glória com grande cobertura midiática fez com que treze equipes se inscrevessem, mas no dia da largada somente seis carros compareceram, sendo três de origem francesa, um norte-americano, um italiano e um alemão. Os automóveis franceses eram um De Dion-Bouton e um Motobloc, ambos com quatro cilindros e potência de 40 cv, além do pequeno Sizaire-Naudin com um cilindro e potência de 12 cv.
O italiano era um Brixia-Züst de quatro cilindros e potência de 40 cv e os favoritos eram o norte-americano Thomas Flyer e o alemão Protos Wagen, já que eram os mais potentes com 60 cv cada um em seus motores quatro cilindros. Todos os carros tinham três passageiros, exceto o Sizaire-Naudin que levava só dois pois era a capacidade máxima do carro.
A largada foi feita numa manhã fria de 12 de fevereiro na Times Square. Todos os pilotos e navegadores estavam equipados para passar meses mundo afora com provisões de combustível, pneus, peças sobressalentes, além de armas de fogo, cordas, pás e outros objetos. Os envolvidos na corrida também usavam viseiras já que quase nenhum dos automóveis tinha para-brisas, a não ser o Motobloc. Mesmo com o frio, comum ao hemisfério norte em fevereiro, foi estimado um grande público de, aproximadamente, 250 mil pessoas e às 11 horas da manhã foi dada a largada!
Inverno inclemente e abandonos
O pequeno Sizaire-Naudin, pilotado por Auguste Pons, mal percorreu 70 km e já teve de abandonar após bater numa pedra e quebrar o eixo traseiro. A prova já começou muito difícil, pois em 1908 foi registrado uma das maiores nevascas da década, onde o percurso de Buffalo (New York) a Chicago (Illinois) demorou mais de uma semana, sendo que em condições normais duraria três dias. Thomas Schuster, um dos tripulantes do Thomas Flyer, relatou que demoraram 22 horas para percorrer somente 12 km.
Três semanas depois, o Thomas, o De Dion-Bouton e o Brixia-Züst saíam do estado de Illinois enquanto que a tripulação do Protos e do Motobloc ainda sofriam para atravessar o estado de Indiana, onde enfrentaram trechos com lama que chegava a 60 cm de profundidade. O Motobloc sofreu com diversos problemas mecânicos e abandonou a prova.
Como o evento virava notícia por todo lugar onde os carros passavam, muitas pessoas iam assistir a passagem dos carros e prestavam qualquer ajuda aos corredores. Bourcier St. Chaffray, o piloto do De Dion-Bouton, chegou a relatar que até a metade do percurso dos Estados Unidos ainda não havia gasto nenhum centavo, pois a população dava tudo sem cobrar.

Os trechos montanhosos de Utah eram tão ruins, que tiveram de desviar pelo deserto de Nevada através do Vale da Morte e no dia 24 de março, o Thomas Flyer chegou à cidade de San Francisco. Os italianos do Brixia-Züst ainda estavam em Utah e chegaram na California onze dias depois. O Protos estava avariado, assim os alemães foram de trem entre o estado de Idaho a Seattle (Washington), evitando o percurso no deserto.
O Thomas foi revisado na concessionária de San Francisco e pegou um navio a vapor até o Alasca, uma viagem que durou dez dias, mas após terem desembarcado no estado, souberam que não era possível atravessar o Estreito de Bering (entre o Alasca e a Rússia) de automóvel. Os organizadores da prova acreditavam que o estreito estaria congelado, sendo possível atravessar de um lado ao outro. O pessoal do Flyer telegrafou aos organizadores e eles pediram aos corredores que retornassem para Seattle.
A corrida pela Ásia
O Protos-Wagen ainda estava muito avariado e pegaram um navio direto para Vladivostok (Rússia). Quando os outros competidores chegaram à Seattle, o navio para a Rússia já havia zarpado e assim, pegaram outra embarcação para o Japão, onde desembarcaram em Kobe. A organização compensou os norte americanos com 15 dias por terem ido ao Alasca e deram 15 dias de punição à equipe alemã do Protos-Wagen por não terem rodado em todo o território norte americano.
Dentre Kobe a Tsuruga, uma distância com pouco mais de 500 km, foi outra tortura para os competidores com estradas muito estreitas feitas para pequenas carroças e havia algumas curvas tão fechadas que obrigavam aos competidores contorná-las usando a força do corpo! A viagem durou quatro dias e depois se reuniram na cidade de Vladivostok. St. Chaffray, o piloto do De Dion-Bouton, decidiu se retirar da competição porque a rota era parecida com a percorrida na Pequim-Paris, prova na qual ele havia participado, e vendeu o automóvel a um aristocrata chinês.
O carro alemão Protos Wagen foi praticamente reconstruído, cujas peças vieram pela ferrovia Transiberiana. Apesar da punição que deixou os alemães com um mês atrás do Thomas, o líder da equipe Hans Koeppen, tenente da infantaria prussiana, decidiu continuar mesmo com chances remotas de vitória. Como a gasolina era escassa na Rússia, os competidores compravam o máximo que podiam e boa parte dos combustíveis eram mandados de trem para serem colocados em pontos estratégicos ao longo da rota.
Nessa época chovia sem parar e na região da Manchúria, o Thomas e o Protos alternavam a posição, mas o barro estava tão espesso que num certo dia, o carro alemão afundou completamente na terra, ficando somente as rodas traseiras para fora! Vendo a situação, os norte americanos resgataram o carro do atoleiro e o tenente Koeppen abriu uma garrafa de champanhe fazendo um brinde pelo ato desportivo da equipe rival. O Thomas também encalhou muitas vezes no percurso, onde o uso de cavalos para sair dos atoleiros se tornou rotineiro.
Entretanto a equipe norte-americana passou por um grande problema: devido ao uso de marchas pesadas por muito tempo, o câmbio não suportou e quebrou. O Thomas foi rebocado até Ikurtsk, onde um ferreiro local reparou outros componentes quebrados e a tripulação passou alguns dias até que o câmbio novo chegasse dos Estados Unidos. Com isso a equipe alemã se distanciou dos norte-americanos e não se encontraram mais durante a prova.
A corrida pela Europa até Paris
No dia 18 de julho, os alemães do Protos Wagen chegam à Moscou, capital da Rússia, e em São Petersburgo o rei Czar Nicolau II os recompensaram com um prêmio de 1000 dólares por terem cruzado toda a Rússia primeiro, o que era uma grande soma para a época, pois nesse tempo podia comprar muitas coisas com poucos centavos. Os tripulantes do Thomas Flyer chegaram à São Petersburgo quatro dias depois.
O trajeto entre a Rússia até Paris foi o mais tranquilo, onde as estradas eram bem mais conservadas e os carros conseguiam chegar a velocidades de até 75 km/h. Quando a equipe norte americana desembarcou em Berlin, a capital da Alemanha, souberam que os alemães tinham chegado em Paris. No dia 30 de julho, às seis horas da tarde, os corredores do Thomas Flyer estacionam o carro em frente à sede do Le Matin e tiveram uma recepção muito calorosa pois eles foram os vencedores d’A Grande Corrida.
Os norte-americanos não chegaram em Paris primeiro, mas foram os vencedores por causa da vantagem recebida ao terem ido à toa para o Alasca e pela punição dos alemães por terem pulado algumas etapas nos Estados Unidos. Mesmo com os vencedores coroados, os italianos do Brixia-Züst continuaram na competição e chegaram à sede do Le Matin mais de um mês e meio depois, chegando no dia 17 de setembro e terminaram em terceiro com três dias atrás da equipe alemã.

A corrida é considerada a mais longa da história, tanto em distância quanto em dias, com 21.346 quilômetros entre New York a Paris e 217 dias de duração (tempo superior a sete meses), se contar o tempo que a tripulação do Brixia-Züst demorou em cruzar a linha de chegada. Depois da prova, muitas questões foram analisadas como as condições das estradas. Se quisessem aumentar a popularidade do automóvel, teriam de investir na infraestrutura. Pouco tempo depois, a fabricante norte-americana Ford lançou o modelo T que, graças ao seu método em linha de montagem, fez o automóvel se popularizar pelo mundo.
A maioria das fabricantes de automóveis envolvidas n’A Grande Corrida fecharam suas portas nas primeiras décadas do século 20: a Brixia Züst encerrou suas atividades em 1917, a Thomas em 1919, a Sizaire-Naudin em 1921 e a Protos em 1927. A Motobloc parou de fazer automóveis em 1931, mas continuou atuando no ramo fabricando motores até 1961. A De Dion-Bouton foi a última entre as participantes da prova a parar de fabricar carros, encerrando suas atividades em 1953.