Acompanhem a incrível história do empresário que viu na dificuldade, uma grande oportunidade de negócios!

A Mercedes Benz veio ao Brasil ainda ao final dos anos 40, sendo uma das primeiras fábricas a se instalar no país, que já estava montando sua fábrica antes mesmo de o presidente Juscelino Kubitschek tomar posse e instituir o incentivo à indústria automotiva nacional! Após a Segunda Guerra Mundial, a corporação alemã estava passando por dificuldades financeiras já que boa parte de suas instalações foram bombardeadas pelos países aliados e tiveram de focar em nichos de mercado mais populares, distanciando do segmento de luxo.
A fábrica estava passando por um momento de transição e não tinha capital o suficiente para expandir suas atividades ao mercado exterior, mas por iniciativa e coragem de um imigrante polonês, a Mercedes Benz conseguiu se dar muito bem no, até então desconhecido mercado brasileiro e o nome desse empreendedor era Alfred Jurzykowski. Não há muitas informações sobre a vida pessoal de Alfred Jurzykowski (lê-se iurzikouski) que nasceu na cidade de Troppau, no Império Austro-Húngaro em 23 de setembro de 1899 (atualmente a cidade de chama Opava e pertence à República Tcheca).

De família judia, Alfred passou a maior parte de sua juventude em Varsóvia, a capital da Polônia, e sua família tinha boas condições financeiras, sendo que após cumprir seu serviço militar foi estudar economia na Universidade de Viena, na Áustria, e com sua fluência no idioma alemão, conseguiu se tornar um representante da Mercedes Benz na Polônia e sua empresa se chamava Towarzystwo Handlowo Przemysłowe Alfred Jurzykowski (Sociedade Industrial e Comercial Alfred Jurzykowski). Mas em setembro de 1939, a Alemanha invadiu o país e Jurzykowski serviu às Forças Armadas, sendo que até foi promovido a tenente, porém os poloneses sucumbiram à enorme força militar tática alemã.
Sabendo o quanto os governantes alemães odiavam judeus como ele e sua família, decidiu largar tudo e se mudar para os Estados Unidos, sendo que Alfred levou joias coladas em seu corpo para financiar a sua nova vida e, em 1940, desembarcou na cidade de New York. Jurzykowski vendeu suas joias e começou um novo empreendimento: uma sociedade na Delicia – uma fábrica de biscoitos e barras de chocolate que prosperou rapidamente e o tornou num milionário!
A vinda de Jurzykowski ao Brasil
Numa ocasião, Alfred decidiu viajar para o Brasil afim de conseguir um fornecedor de cacau para fazer seus biscoitos de chocolate e ao chegar no Rio de Janeiro, a capital federal na época, ele se deparou com um sistema de transporte deficiente tanto de passageiros quanto de cargas. Ao invés de ficar irritado e falar mal do país quando voltasse aos Estados Unidos, Alfred pensou diferente e viu uma ótima oportunidade de voltar a trabalhar com automóveis e, sabendo que a Mercedes Benz fabricava caminhões e chassis de ônibus, conversou com seus antigos contatos e até com oficiais norte americanos, que administravam a Alemanha ocupada, para convencer a Daimler-Benz (corporação dona da Mercedes Benz) a investir no Brasil, mas isso não seria uma tarefa fácil…

Como vimos, a corporação estava mais preocupada em sobreviver do que se expandir para o exterior, ainda mais para um país cujo mercado era desconhecido. Porém Jurzykowski conseguiu convencer os executivos após ele propor investir na construção da fábrica com o seu próprio dinheiro! Assim foi aberto em 1949 a Distribuidores Unidos do Brasil S.A. com filiais no Rio de Janeiro e São Paulo, onde passou a construir caminhões e ônibus Mercedes-Benz no regime CKD (os produtos vinham da Alemanha todos desmontados e na empresa de Alfred eram montados).
Em 1951, o polonês queria montar uma fábrica da Mercedes Benz e uma fundição de motores, sendo que até apresentou suas propostas ao presidente da república Getúlio Vargas e também contou com a ajuda dos militares brasileiros, já que as Forças Armadas desejavam uma empresa do ramo por questões de estratégicas. Alfred contratou o general reformado Edmundo de Macedo Soares para ser presidente de sua nova empresa, já que entendia de siderurgia e até ajudou a montar a CSN (Companhia Siderúrgica Nacional) na cidade de Volta Redonda (RJ).
A fundação da Mercedes-Benz do Brasil
Em 1953, Jurzykowski fundou a nova empresa: a Mercedes-Benz do Brasil S.A., onde investiu 75% do capital e a Daimler-Benz ajudou com os outros 25% e uma fábrica já estava sendo construída em São Bernardo do Campo (SP), sendo que Alfred comprou o terreno e construiu a planta sozinho, sem emprestar um único centavo de bancos ou da Daimler-Benz! Em 1955, Alfred inaugurou sua fundição de motores em São Paulo (SP) que se chamava Sociedade Técnica de Fundições Gerais S.A. – a Sofunge, sendo a primeira do ramo da América Latina.
A inauguração contou com a presença de Juscelino Kubitschek que havia sido eleito presidente, mas ainda não havia empossado do cargo. A empresa fabricava os motores Diesel da Mercedes-Benz para seus caminhões e para quem quisesse comprar, já que a empresa fez muitas campanhas para converter caminhões a gasolina (a maioria absoluta da frota do país na época). E em setembro de 1956 é inaugurada a fábrica de caminhões e ônibus em São Bernardo do Campo que contou novamente com Juscelino Kubitschek, mas agora como presidente.

Logo os caminhões, ônibus e motores Mercedes-Benz conquistaram o mercado, cujas vendas aumentavam ano a ano. Dessa forma a corporação alemã se interessou muito nas operações brasileiras e comprou mais 25% da participação, assim Jurzykowski e a Daimler-Benz passaram a ter 50% cada um. Alfred se preocupava com a formação de seus profissionais e sempre financiava cursos profissionalizantes. Para cargos mais importantes sempre contratava os melhores alunos de faculdades e universidades, tanto do Brasil quanto do exterior. Ao final dos anos 50, os produtos da Mercedes-Benz já contavam com 90% de nacionalização!
Alfred gostava muito do Brasil e queria se tornar cidadão brasileiro, porém ele nunca conseguiu. Em 1960 decidiu voltar a morar nos Estados Unidos para fundar um instituto em New York para promover a cultura polonesa: a Alfred Jurzykowski Foundation, organização que existe até hoje. A Daimler-Benz pedia insistentemente a Alfred vendesse sua participação da filial brasileira mas ele não abria mão, pois arriscou muito no mercado até então desconhecido e se não fosse por sua própria iniciativa, a fabricante alemã nem estaria vendendo veículos no país.

Alfred Jurzykowski faleceu no dia 29 de maio de 1966 aos 67 anos em New York. A Damiler-Benz só conseguiu comprar os outros 50% da filial brasileira após o falecimento de Alfred. Graças a coragem e iniciativa do empresário polonês, a Mercedes-Benz se estabeleceu no Brasil como uma das maiores fabricantes de caminhões e ônibus, sendo que por muitos anos foi a líder absoluta no segmento dos caminhões leves e médios! Alfred Jurzykowski foi imortalizado no instituto que leva seu nome em New York e na avenida onde fica a sede da Mercedes-Benz do Brasil em São Bernardo do Campo.