Conheçam a história do AVE Mizar – um projeto que pretendia popularizar as aeronaves, porém teve um triste desfecho…

Com a popularização dos automóveis, muitos passaram a desfrutar de suas vantagens: as pessoas não precisavam mais usar cavalos ou as pernas para ir de um lugar a outro e se precisasse carregar uma carga, o veículo também dava conta do recado! Com o passar dos anos, muitas cidades cresceram, assim como o fluxo de veículos, causando os congestionamentos – ocorrência comum às principais metrópoles do mundo.
Sem sobra de dúvidas, muitos dos que ficam presos nos congestionamentos pensaram, pelo menos uma vez: “quem dera se pudesse voar por cima!” Veículos como aviões e helicópteros possuem muitas vantagens, sendo capazes de transpor barreiras naturais (montanhas, florestas, rios, etc.) ou as criadas pelo homem (prédios, ruas, propriedades, etc.). Eles também podem voar em altas velocidades, podendo alcançar 300 km/h ou mais sem preocupações, mas é claro que existem as desvantagens e a principal delas é que ambos são muito caros!

Muitos tentaram driblar os altos preços dos veículos aéreos com soluções mais baratas e uma das tentativas foi feita pela companhia norte-americana AVE ou Advanced Vehicle Engineers (Engenheiros de Veículos Avançados em inglês) que ficava na cidade de Los Angeles, no estado da California. A empresa foi fundada em 1968 pelos amigos sócios Henry Smolinski e Harold Blake, ambos formados em engenharia aeronáutica. Os sócios já tinham trabalhado anteriormente em empresas do ramo aeroespacial até que fundaram seu próprio empreendimento após criarem o Mizar.
AVE Mizar – o aparato que fazia um carro voar!
O nome veio de uma estrela da constelação Ursa Maior e consistia em um aparato com asas baseada no Cessna Skymaster, uma aeronave bimotor com um motor à frente e outro atrás da cabine, apelidado pelos pilotos de ‘Puxa Empurra’. No projeto Mizar, a cauda, as asas e o motor traseiro do Cessna foram preservados. A mecânica era um Continental IO-360C, um boxer arrefecido a ar de seis cilindros, 5.9 litros e potência de 210 cv a 2800 rpm (curvas de torque não são medidas em aeronaves, mas caso esteja curioso, a estimativa está em 54,4 kgfm).

O Mizar poderia ser acoplado em qualquer automóvel e quando não quisesse podia desmontar, deixando o carro apto a rodar nas ruas normalmente. De acordo com a empresa, o procedimento de montagem do aparato era simples e os componentes não eram pesados e divulgavam que, num tom altamente machista, ‘até uma mulher poderia montar sem ajuda’. Em 1971 a empresa começou a realizar seus primeiros testes e aperfeiçoamentos na invenção.
Foi observado que, para voar sem problemas, era necessário que o peso do aparato + automóvel ficasse abaixo de 1700 kg e então passaram a focar em carros compactos e leves para seus testes. Algum tempo depois, a AVE firmou parceria com a Galpin Ford, uma grande rede de concessionárias Ford do estado da California, e assim o compacto Pinto, com peso máximo de 1030 kg, foi o escolhido para realizar os testes práticos do Mizar, cujo primeiro voo foi realizado no início de 1973 por um piloto contratado pela empresa.
O trágico fim do projeto!
A AVE estava prosperando já que a Galpin Ford e mais um grupo de investidores captaram mais de um milhão de dólares para investir na empresa. A AVE já estava conseguindo autorização para fabricar o acessório perante as autoridades aéreas do país e planejavam lançar o Mizar em 1974, cujos preços variavam de US$ 18.300,00 a US$ 29.000,00; um valor nada barato para a época (um Ford Pinto 0 km era vendido por US$ 1.850,00), mas muito mais em conta do que se comprasse um avião Cessna.
Apesar dos testes bem sucedidos, Smolinski e Blake acharam o motor Continental fraco para a aeronave e trocaram por um maior: um Lycoming O-540 que também é um seis cilindros boxer a ar, mas com volume bem maior de 8.9 litros e potência de 300 cv a 2700 rpm (para curiosidade, o torque estimado é de 80,7 kgfm), além de ser mais pesado. Após a instalação do motor, os sócios estavam ansiosos para testar o Mizar com a nova mecânica, mas no dia 11 de setembro de 1973, o piloto de testes ficou doente e então os dois amigos, que eram pilotos habilitados, decidiram voar.
Henry Smolinski pilotou o carro e Harold Blake ficou no banco do passageiro, mas dois minutos após a decolagem a asa direita se desprendeu e o Ford Pinto caiu e bateu na copa de uma árvore e acertou um caminhão que estava estacionado. Com o impacto o carro explodiu e os dois ocupantes faleceram no local, sendo que ambos tinham 40 anos. Por pouco o carro não acertou o motorista do caminhão que saiu correndo quando ouviu o barulho do impacto nas árvores, mas ainda assim ficou levemente ferido.
Nas investigações, concluíram que a soldagem e fixação do Mizar ao automóvel era deficiente e, mesmo usando um carro leve como o Ford Pinto, o conjunto era mais pesado que o Cessna e estava em seu limite suportável. Também foi apontado que o motor mais potente e pesado pode ter potencializado a ruptura dessa estrutura. Com o falecimento dos proprietários da AVE (Smolinski era o presidente e Blake o vice) mais a repercussão negativa da tragédia, a empresa encerrou suas atividades. O Mizar serviu de inspiração para uma cena do filme 007 Contra o Homem com a Pistola de Ouro, estrelado por Roger Moore e Christopher Lee, onde um AMC Matador voa com asas de avião como no protótipo da AVE.